19 out Banco de Capacitores Dessintonizado: como evitar a ressonância harmônica na indústria
Estudo de caso: transformador de 1.500 kVA, 13,8 kV / 440 V, indústria metalmecânica na Região Metropolitana de Curitiba
Por Eng. Esp. Alexandre Mettegang Diener, Engenheiro Eletricista e Engenheiro de Segurança do Trabalho (CREA-PR 87195/D), AW Strom Engenharia e Serviços. Publicado em outubro de 2026.
Sua indústria paga energia reativa excedente mesmo tendo banco de capacitores?
Os capacitores perdem capacidade em menos de dois anos?
O problema pode não estar nos capacitores, e sim em um fenômeno chamado ressonância harmônica: o próprio banco amplifica as distorções da rede e se danifica.
Neste artigo, a AW Strom mostra um caso real de uma indústria da região de Curitiba, explica por que isso acontece e detalha a solução adotada: o banco de capacitores dessintonizado (7 %).
Resumo rápido
- O problema: a planta pagava reativo excedente, mesmo com bancos automáticos em dois dos três quadros gerais.
- A causa: no quadro estudado (QGBT2), o banco de capacitores amplificava a 13ª harmônica. Com o banco ligado e carga leve, a corrente de 13ª chegava a 17 % da fundamental.
- O efeito: capacitores com perda de capacitância de 9 a 13 % em menos de dois anos.
- A solução projetada: banco automático dessintonizado com fator de 7 %, em que cada estágio é um par reator + capacitor selecionado em conjunto pelo fabricante.
O caso: fator de potência baixo mesmo com banco de capacitores
A unidade é atendida em 13,8 kV e tem três transformadores a seco de 1.500 kVA (13,8 kV / 440 V), cada um alimentando um quadro geral de baixa tensão (QGBT1, QGBT2 e QGBT3).
O fator de potência apurado pela concessionária ficava abaixo da referência de 0,92 em boa parte das horas de produção, com cobrança de excedente reativo.
- QGBT1: sem compensação em operação.
- QGBT2: banco automático de 12 estágios (cerca de 115 kVAr efetivos), com controlador antigo.
- QGBT3: banco de 14 estágios que atendia bem até cerca de 350 kW de carga e saturava acima disso.
Este artigo trata do QGBT2. Um laudo de capacitância feito meses antes já havia encontrado um estágio fora de serviço e três estágios com capacitância de 9 a 13 % abaixo do nominal, fora da tolerância de −5 % da NBR IEC 60831. A explicação usual seria envelhecimento ou tensão alta. A medição mostrou que havia uma causa mais específica.
O que a medição mostrou
Durante sete dias, os três quadros foram medidos ao mesmo tempo com analisadores de qualidade de energia, em registros de 1 minuto.
No QGBT2, o reativo medido era capacitivo (negativo) em 75 % do tempo, entre −35 e −70 kVAr em carga leve, e indutivo em produção, chegando a +270 kVAr: o controlador ligava quase todo o banco de madrugada e não tinha reserva de dia. A distorção de corrente (THDi) era a maior da planta: 21 % em produção e 31 a 39 % em carga leve.
Como a exportação do analisador traz só a distorção total, os espectros completos de quatro registros foram extraídos da memória do instrumento, em carga alta e em carga leve:
| Registro | Condição | P / Q (kW / kVAr) | Fundamental (A) | 5ª (A) | 7ª (A) | 11ª (A) | 13ª (A) | 2ª / 14ª (A) | THDi |
| Produção | 435 kW | 435 / +359 | 701–723 | 129 | 70 | 46 | 43 | 48 / 45 | 25 % |
| Produção | 370 kW | 370 / +308 | 603–617 | 104 | 50 | 37 | 37 | 40 / 36 | 23 % |
| Produção | 340 kW | 340 / +242 | 523–537 | 75 | 31 | 38 | 29 | 33 / 25 | 19 % |
| Carga leve | 123 kW, banco ligado | 123 / −72 | 176–179 | 19 | 9 | 23 | 31 | 9 / 4 | 25 % |
Harmônicas de corrente medidas no QGBT2 (pior fase).

Espectro de corrente do QGBT2 em produção (esquerda) e em carga leve com o banco ligado (direita). Em vermelho, a 11ª e a 13ª harmônicas.
Três pontos chamam a atenção:
- A 11ª e a 13ª harmônica têm 37 a 46 A e 29 a 43 A em produção, três a cinco vezes o que se mede no QGBT1 da mesma planta, com cargas semelhantes.
- Há harmônicas pares expressivas (2ª de 33 a 48 A, 14ª e 16ª de 25 a 45 A), sinal de cargas com assimetria de semiciclo, como retificadores semicontrolados ou máquinas de solda.
- O ponto decisivo: no registro de carga leve, com apenas 179 A de fundamental, a 13ª tem 31 A, ou 17 % da fundamental. Uma carga de 123 kW não produz 31 A de 13ª. O que produz é a ressonância do banco de capacitores que estava ligado naquele momento.
Em palavras simples: harmônicas são “ruídos” na corrente elétrica, gerados por equipamentos como inversores, retificadores e máquinas de solda. Normalmente elas se espalham pela rede. Quando existe ressonância, o banco de capacitores e o transformador “se encontram” numa frequência em que esses ruídos são amplificados em vez de absorvidos.
Por que um capacitor pode amplificar harmônicas
Visto do barramento de 440 V, o transformador e a rede formam uma indutância. O banco de capacitores é uma capacitância. Os dois ficam em paralelo e formam um circuito ressonante. A ordem harmônica em que isso acontece é calculada por:
hr = √(Scc ÷ Qc)
onde Scc é a potência de curto-circuito no barramento (24 MVA para um transformador de 1.500 kVA com 6,2 % de impedância) e Qc é a potência do banco ligada naquele momento.
| Banco ligado | Ressonância na |
| 200 kVAr | 11ª harmônica |
| 115 kVAr | 14,5ª harmônica |
| 60 kVAr | 20ª harmônica |
Na frequência de ressonância, a impedância do barramento fica muito alta. A corrente harmônica da carga produz uma tensão harmônica grande e circula, amplificada, entre o capacitor e o transformador.
Como o banco é automático, a potência ligada muda ao longo do dia e a ressonância varre uma faixa de ordens. Qualquer banco convencional maior passaria pela 13ª e pela 11ª ao escalonar. A 13ª de 31 A medida em carga leve é a assinatura desse pico.

Impedância do barramento do QGBT2 em função da ordem harmônica: à esquerda, a situação atual com o banco convencional; à direita, o banco dessintonizado projetado. Modelo: curto-circuito do transformador, carga resistiva de amortecimento de 200 kW e banco no estado indicado
Consequências para os capacitores
A corrente harmônica que circula pelo capacitor se soma à fundamental: um capacitor de 440 V operando a 448 V e absorvendo 13ª amplificada trabalha acima da corrente nominal e sem margem de tensão. Perda de capacitância em dois anos, estágios fora de tolerância e um estágio aberto são o resultado esperado, e foi o que o laudo encontrou. O controlador, por sua vez, “vê” o reativo total do quadro, inclusive a parcela de distorção, e tende a ligar mais estágios do que a carga pede, o que fecha o ciclo: mais banco, ressonância mais próxima da 13ª, mais amplificação.
Banco dessintonizado: o que significa “7 %”
A solução é impedir que o banco forme ressonância paralela nas ordens em que a carga tem corrente. Isso é feito colocando um reator em série com cada capacitor.
O parâmetro que define o conjunto é o fator de dessintonia (p): a relação entre a reatância do reator e a do capacitor na frequência fundamental (60 Hz). Com p = 7 %, o reator tem 7 % da reatância do capacitor.
A frequência de sintonia do estágio é 60 ÷ √0,07 = 227 Hz (3,78ª ordem). Abaixo dessa frequência o estágio se comporta como capacitor. Acima, como indutor. Na 5ª, 7ª, 11ª e 13ª harmônicas, o estágio é visto pela rede como indutância, e dois indutores em paralelo (transformador e banco) não formam ressonância.
A ressonância paralela não desaparece, mas é empurrada para baixo da frequência de sintonia, entre a 3ª e a 4ª ordem, onde a carga quase não tem corrente.

Impedância de um estágio reator + capacitor, para três fatores de dessintonia. A linha tracejada é o capacitor sem reator.
Por que 7 % e não outro valor?
A escolha de p é um compromisso:
- 5,67 %: sintonia em 252 Hz, logo abaixo da 5ª. Absorve muita corrente de 5ª (pode ser desejável como filtragem, mas sobrecarrega o estágio) e exige capacitor e reator mais robustos.
- 7 %: sintonia entre a 3ª e a 5ª, longe de ambas. É o padrão para redes trifásicas de 6 pulsos. O critério do fabricante é usar 7 % quando a 3ª harmônica da carga for menor que 20 % da 5ª. No QGBT2, a 3ª é de cerca de 9 A contra 75 a 130 A de 5ª.
- 12,5 a 14 %: sintonia entre 160 e 170 Hz, abaixo da 3ª. Necessário quando há 3ª harmônica significativa (cargas monofásicas, iluminação eletrônica), ao custo de reatores maiores, mais perdas e mais elevação de tensão.
O preço: a tensão no capacitor sobe
Reator e capacitor em série funcionam como um divisor de tensão, e a tensão no capacitor fica maior que a do barramento:
Uc = U ÷ (1 − p) = 440 ÷ 0,93 = 473 V (482 V com o barramento a 448 V, como medido)
Por isso o capacitor de um estágio dessintonizado precisa de tensão nominal superior à do barramento. Neste projeto, os conjuntos foram tomados da linha de 480 V do fabricante, com capacitores de 535 V do tipo heavy duty: o capacitor opera a 0,90 da sua tensão nominal, com margem para as harmônicas. Os conjuntos da linha de 440 V operariam praticamente na tensão nominal e foram descartados.
Há também um efeito sobre a potência entregue: os valores de catálogo da linha de 480 V são dados nessa tensão e já incluem o reator. Como a potência reativa varia com o quadrado da tensão, um conjunto de 30,3 kVAr nominais entrega 30,3 × (440/480)² ≈ 25,5 kVAr no barramento de 440 V.
Reator e capacitor são um par
A sintonia depende do produto entre a indutância do reator e a capacitância do capacitor. Trocar o capacitor por outro de capacitância diferente, mesmo que tenha a mesma potência nominal em outra tensão, desloca a frequência de sintonia:
- Capacitor com 8 % mais capacitância: sintonia vai de 227 para 218 Hz.
- Capacitor com 20 % menos capacitância: sintonia sobe para 253 Hz, colada na 5ª harmônica.
Por isso, use sempre os pares já casados nas tabelas dos fabricantes, para cada tensão de rede, frequência e fator de dessintonia.
O projeto adotado
O banco foi dimensionado com 12 estágios em três potências (10,9 / 18,2 / 25,5 kVAr líquidos em 440 V), totalizando 261,7 kVAr, com degrau fino de 10,9 kVAr para a carga de base e os fins de semana. Cada estágio tem reator, capacitor de 535 V, contator com resistores de pré-carga e fusíveis gG.
Cuidados de projeto que decorrem do reator
- Calor e peso: os 12 reatores dissipam 1,4 kW e pesam 303 kg. A coluna precisa de ventilação forçada contínua (≥ 600 m³/h no caso) e de estrutura para o peso.
- Posição na coluna: reatores na parte superior e capacitores na inferior, para que o ar quente dos reatores não aqueça os capacitores, com entradas de ar filtradas e folgas de 50 mm entre reatores.
- Proteção térmica: cada reator tem um protetor térmico, ligado em série na cadeia de permissão do banco. Nunca ponteie esses contatos.
- Nunca misture: não se pode manter no mesmo barramento estágios com reator e estágios sem reator. Os convencionais voltariam a formar ressonância e absorveriam as harmônicas que os dessintonizados rejeitam. Por isso o banco antigo foi retirado de serviço.
- Tempo de descarga: capacitores maiores exigem mais tempo entre desconectar e reconectar (90 s para os de 35 kVAr). O controlador foi ajustado para 120 s.
Resposta em frequência: banco convencional e dessintonizado
No convencional, a fração chega a 3,5 na 13ª com carga de 200 kW e a 3,8 em carga leve (120 kW), quando há menos amortecimento resistivo: cada ampère de 13ª da carga vira mais de três no capacitor. No dessintonizado, a fração fica em 0,26 na 5ª e em torno de 0,15 na 11ª e na 13ª, praticamente independente da carga: o banco absorve uma parcela pequena e previsível das harmônicas, que o fabricante considera ao dimensionar o par.
| Ordem | Corrente da carga (A, máx.) | Banco convencional atual, 115 kVAr (fração) | Banco dessintonizado, 261,7 kVAr (fração) | Corrente no banco dessintonizado (A) |
| 5ª | 129 | 0,13 | 0,26 | 34 |
| 7ª | 70 | 0,30 | 0,18 | 13 |
| 11ª | 46 | 1,31 | 0,15 | 7 |
| 13ª | 43 | 3,5 (3,8 em carga leve, 120 kW) | 0,14 | 6 |
Repartição estimada das harmônicas da carga entre rede e banco: fração I_banco/I_carga calculada com o circuito equivalente (Scc = 24,2 MVA, X/R = 10, carga resistiva de 200 kW, mesma condição das figuras); a fração do banco dessintonizado é praticamente insensível à carga.

Fração da corrente harmônica da carga que circula pelo banco: banco convencional atual (vermelho) × banco dessintonizado (verde e azul). Cálculo para carga de 200 kW.
Com o banco completo ligado, a corrente harmônica total por estágio fica abaixo de 4 A sobre 26 a 36 A de fundamental. A distorção de tensão do quadro, hoje entre 3 e 4 %, tende a cair com a retirada do banco ressonante.
Controle: o banco certo com o ajuste certo
A dessintonia resolve a ressonância, mas não resolve o fator de potência sozinha. O controlador novo, de 24 estágios e medição trifásica, foi parametrizado com a lógica de “combinação mais próxima” (escolhe, entre as combinações possíveis dos 12 estágios, a que melhor se aproxima da necessidade medida) e com objetivo de cos φ ligeiramente capacitivo (0,99).
Esse ajuste tem uma razão: o medidor da concessionária fica em 13,8 kV e vê também o reativo de magnetização dos três transformadores (cerca de 30 kVAr), que os analisadores em 440 V não enxergam. Uma pequena sobra capacitiva cobre essa parcela nos fins de semana, quando ela domina.
A simulação hora a hora sobre a semana medida leva a fronteira a 100 % das horas indutivas acima de 0,92 e 98 % acima de 0,94, sem reativo capacitivo faturável à noite.

Fator de potência horário médio na fronteira, em dias úteis: situação atual (vermelho), após o banco do QGBT1 (azul) e após o banco dessintonizado do QGBT2 (verde).
Lições do caso
- Capacitores envelhecendo rápido pedem medição de espectro antes de qualquer reposição. A perda de capacitância foi o sintoma. A ressonância foi a causa.
- O THD total não basta para decidir entre banco convencional e dessintonizado. Os espectros por ordem, em carga alta e em carga leve com o banco ligado, foram o dado que decidiu o projeto.
- O fator de dessintonia é uma escolha de engenharia, não um rótulo. 7 % significa reator com 7 % da reatância do capacitor, sintonia em 227 Hz, estágio indutivo a partir da 5ª e tensão no capacitor 7,5 % acima da do barramento.
- Reator e capacitor são escolhidos em par, e a mistura com estágios convencionais no mesmo barramento é proibida.
- O ajuste do controlador deve mirar o resultado onde ele é cobrado: o medidor da concessionária, e não apenas o fator de potência do próprio quadro.
Perguntas frequentes
O que é um banco de capacitores dessintonizado?
É um banco de capacitores em que cada estágio tem um reator ligado em série. O reator muda o comportamento do conjunto para que, nas frequências das harmônicas da carga, ele aja como indutância e não forme ressonância com o transformador.
Como saber se meu banco de capacitores está em ressonância?
Sinais comuns são capacitores perdendo capacitância rápido, estágios abertos ou fora de tolerância, e distorção de corrente alta em carga leve com o banco ligado. O diagnóstico confiável é feito com analisador de qualidade de energia, registrando o espectro harmônico por ordem.
Quando usar o fator de dessintonia de 7 %?
O 7 % é o padrão para redes trifásicas de 6 pulsos, quando a 3ª harmônica da carga é menor que 20 % da 5ª. Com 3ª harmônica significativa, usam-se fatores maiores, como 12,5 a 14 %.
Posso misturar estágios com reator e sem reator no mesmo quadro?
Não. Os estágios convencionais voltariam a formar ressonância nas ordens altas e absorveriam as harmônicas que os dessintonizados rejeitam.
Posso trocar apenas o capacitor de um estágio dessintonizado?
Não sem cuidado. Reator e capacitor são um par, e uma capacitância diferente desloca a frequência de sintonia, podendo aproximá-la da 5ª harmônica.
Seu banco de capacitores está dando problema?
A AW Strom Engenharia e Serviços realiza estudos de qualidade de energia e compensação de reativo para indústrias, com medição, diagnóstico e projeto.
Fale com nossos engenheiros:
- WhatsApp e telefone: (41) 3538 2503
- Outro telefone: (41) 9 8403 8369
- E-mail: awstrom@awstrom.com.br
- Rua Theodoro Makiolka, 3451, Curitiba/PR
Solicitar avaliação técnica pelo WhatsApp
Referências:
NBR IEC 60831-1/2 (capacitores de potência autorregenerativos); IEC 61921 (bancos automáticos de baixa tensão); IEEE Std 519-2022; PRODIST Módulo 8; REN ANEEL nº 1.000/2021; catálogos de capacitores, reatores de dessintonia e controladores de fator de potência dos fabricantes. Os dados de medição, as simulações e os gráficos provêm do Estudo de Compensação Reativa (Partes I e II) elaborado pela AW Strom para o cliente.
Sem Comentários